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DIAS CONFUSOS
CARNE CRUA
--- "Editor":
Fernando César
Editorial
Toda informação é absorvida de forma particular, é recriada. Além do quê, muitas vezes deixa vácuos de dúvidas e lanças de idéias. Heresia é a soma destas recriações, dúvidas e idéias.
Por questões de tempo e de vontade, o tamanho de Heresia é flexível. Pode-se encontrar, em uma semana, um artigo curto, em outra um "grande tratado" sobre qualquer assunto.
Aqui falamos de política, personalidades, economia, cinema, sexo, história, literatura, psicologia etc.
E, sim, aceitamos colaborações (de idéias, mas se quiser dar sua parte em dinheiro...).
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CINEMA + RELACIONAMENTOS
(sobre: Tentação, direção: John Curran)
O QUE É SER SAUDÁVEL, NO AMOR?
Os conceitos de saúde mental envolvem a noção de: ser comum, não estar sofrendo, não causar sofrimento.
Uma pessoa que, no jogo do amor, não sofra, é normal? Bem, ao menos um critério de normalidade está satisfeito. Outro, ser comum, ser como a maioria das pessoas, é discutível. Primeiro porque não temos dados correntes sobre a questão: a maioria das pessoas sofre por amor ou não? Talvez, até certa idade. A "maturidade", um relacionamento estável, podem minar o problema. Em segundo lugar, o fato de ser fora da média realmente torna a pessoa doentia ou apenas incomum?
O terceiro critério de normalidade, não causar sofrimento, é que pode pesar neste caso.
No filme "We dont live here anymore" (traduzido, no Brasil, como "Tentação"), baseado em contos de André Dubus, temos uma boa oportunidade de estudo sobre como uma pessoa "fria" pode causar sofrimento.
Hank (Peter Krause), é casado com Edith (Naomi Watts). Eles são amigos do casal Jack (Mark Ruffalo) e Terry (Laura Dern). Edith e Jack começam a ter um caso, aparentemente por ação dela. O casamento de Jack fica instável, e Terry cede às investidas de Hank.
Tudo bem, se tudo assim tranqüilo fosse.
No decorrer do filme, vamos percebendo que, na verdade, Edith, que parecia uma "sacana", trai por não se sentir feliz no casamento (dizem alguns, românticos, que esta é a razão de toda traição feminina). Por não se sentir feliz mas querer que fosse diferente, que Hank lhe desse atenção - ele é escritor e vive focado no seu trabalho. Talvez o casamento de Jack já não viesse bem, e ele se apaixona em Edith. Sua esposa sofre muito com a situação que adivinha, e por isto transa com Hank, mas nunca "na boa", e sim tentando mobilizar Jack (até mesmo conta a ele, e mais se desespera em ver que ele não se importou, pelo contrário, se alegra, pois assim poderia aliviar sua consciência - além do estranho prazer de ser corno).
O momento de maior tensão, no filme, é quando Jack conta a Terry que realmente ama Edith. Terry procura Edith, que resolve falar de seu caso ao esposo.
Porém, este já sabia, e quando Jack chega na casa do amigo, este pergunta, com o mesmo ar impassível que sempre teve:
- Quer que eu te prepare um café?
Hank não se importava em dividir sua esposa (após oferecer o café ainda diz ao amigo: "Vou dedicar meu próximo livro a você. Uma mulher amada dá menos trabalho."), não tinha sentimentos de posse sobre ela, e por isto, não sofria. Hank é normal ou doente?
Não sofria, mas causou uma cadeia de sofrimentos: a esposa sofria, o amigo acabou por sofrer (envolvido com a amante, porém o coração dela era do esposo), a esposa do amigo também (com o abandono, com o violentar-se).
O transtorno de personalidade anti-social (vulgarmente, o "psicopata"), é definido, basicamente, pelo rastro de sofrimento que deixa, e pela ausência de remorsos que acompanhem o acometido. Hank é anti-social? Ele não agia movido por raiva - gostava, apesar de tudo, da sua esposa, gostava do amigo, gostava da esposa do amigo. Não queria perder a companhia da família, por isto não se separava. Porém, não podia dar à esposa o amor que ela queria. Quando esta começa seu caso, deve ter sido um alívio para ele. O problema mesmo começa quando o caso desagrega o outro casal.
Ele tinha culpa de não amá-la da maneira que ela desejava? Não, amor e desejo não nascem da nossa vontade ou determinação. Ele poderia prever o que ocorreria no outro casamento? Não, até mesmo porque, na sua visão, sexo e amor são coisas diferentes, e esperava que o amigo tivesse o mesmo ponto de vista.
Talvez Hank pudesse amar outra mulher, mais do que à sua. Mas, na pequena cidade em que viviam, isto não ocorreu. E ele conformou-se. Não era totalmente frio, mas também não era possessivo. Era alguém que aceitava a vida como era. Talvez por isto lhe faltasse inspiração para escrever seus livros...
Cartas à redação:
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MÚSICA; SEXO
(sobre: Smashing Pumpkins e Ramones)
CORGAN E O CATUPIRY
Suponhamos que você goste muito de coxinha de frango. Suponhamos ainda que você goste ainda mais de catupiry (que, na prática, não se encontra mais, apenas catupiry genérico). Então você morde a coxinha e o catupiry aparece um pouquinho. Você come logo o catupiry ou deixa pro final?
As pessoas podem ser divididas em duas categorias. As que comem logo o melhor, e as que deixam pro final. Suas escolhas definem suas personalidades, e seria sem lógica dizermos que alguma das opções é a melhor, visto que, mesmo sofrendo, geralmente as pessoas gostam de suas personalidades.
Das vantagens de comer logo - se você deixa pro final, corre um risco de cair um avião na sua cabeça e você morrer sem ter comido.
Das vantagens de comer no final - talvez o melhor do desejo seja o próprio desejo, e não sua realização. Daí, quanto mais se adie, mais tempo se deseja.
Se eu fosse mulher, e groupie (aquelas que ficam seguindo bandas), eu queria transar com o Billy Corgan, do Smashing Pumpkings. Eu não transaria com um daqueles Ramones. Eu nunca transaria com um punk.
Por quê?
Porque o Corgan é inteligente, bonito (a meu ver) e, o melhor de tudo: suas músicas não têm refrão. Têm aquela parte mais legal, que geralmente vira refrão com outras bandas, mas a parte legal só acontece uma vez, e quase no final da música. Ou seja, ele é um cara que, na cama, iria devagar, envolvendo, e demoraria a chegar ao ápice, mas esta espera aumenta o desejo, e o ápice seria O ápice.
Já o punk: é feio, pouco criativo e, o pior de tudo: músicas de 3 minutos, refrão imediato. Ou seja: sexo banal, ejaculação precoce, sem nem olhar na sua cara.
Transar com o Corgan seria bem melhor. Claro, se antes do ápice um avião não caísse na nossa cabeça...
Cartas à redação:
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LITERATURA
(sobre: As pessoas dos livros, Fernanda Young)
O MAIS (FÁCIL) DIFÍCIL É DAR UM TÍTULO A UM TEXTO
Fernanda Young é uma escritora comentada, e é óbvio que parte disto se dá por sua figura: cabelos curtíssimos, tatuagens. Figuras interessantes geram, obviamente, interesse. Na capa de "As pessoas dos livros", é ela quem aparece.
Na contra-capa, aparece de frente, e as letras invertidas. Como se o livro fosse transparente. E ela, natural e linda. "Todos dizem (acusam) que sou uma grande marketeira." Louvável trabalho editorial.
Mas do livro não gostei.
As primeiras páginas li no embalo de quem começa a ler um livro para ver "qual é a dele". Porém logo comecei a achar chata a personagem principal. Sabe aquele tipo de pessoa que tem uma vida relativamente tranqüila e resmunga o tempo todo? Neurótica? Pois é. Mais um livro que tive vontade de parar no meio da leitura. O álibi do livro é que a própria personagem diz isto a certa altura: "Estou chata." (ou algo assim). Pode-se ser neurótico, mas ser neurótico e chato é um porre. Woody Allen é neurótico e engraçado!
Continuei por curiosidade: afinal, o que é que o tabuleiro da baiana tem? Há pessoas que falam bem dela (dos livros dela). E o título era promissor: "As pessoas dos livros". Para mim, que escrevo, este título era quase uma ordem: "Leia-me". A orelha do livro, mais ainda: "Quem é essa gente que escreve livros? E que lê livros, publica livros, que conversa sobre livros? Quem é essa gente que lê orelha de livros? Em que, ou quem, eles estão tão interessados? Quem é essa gente que aparece nos livros, você conhece? Um personagem existe? Vida real existe? para ter resposta a essas perguntas, você precisa conhecer As pessoas dos livros."
Eu queria ler um livro que falasse sobre estas coisas. Mas este não fala. Fala, sim, mas muito pouco. Nada que justifique o título do livro, muito menos a orelha. A história é outra. Em um chat com a escritora, que encontro nos maravilhosos arquivos da internet, ela afirma: "Os títulos são quase sempre as primeiras idéias dos livros." Imagino então a seguinte situação: a idéia ffoi uma, mas a história seguiu outro rumo. "Quando escrevi esse livro foi dessa mesma maneira, não tinha idéia do que ia acontecer". A velha história de que um escritor não tem domínio sobre suas personagens quando começa a escrever. (O que não é bem o meu caso, eu geralmente tenho uma idéia e meu trabalho é colocá-la no papel. Eu escrevo primeiramente na cabeça. E neste espaço, sim, podemos dizer que não tenho controle sobre o que acontece. Não planejo o que quero imaginar - creio... porque a psicanálise diria exatamente o contrário: que minha "inspiração" é exatamente o que quero imaginar).
Às vezes escrevo histórias sem títulos. E depois tento sintetizar o assunto em um título legal. Porém às vezes surgem do nada uns títulos intrigantes, sem idéia alguma para o conteúdo. Tinha uma lista apenas com títulos (perdi, roubaram meu palm onde estavam). O último título que me apareceu foi "A paz e os abismos". Depois é que me veio a idéia para o "livro" (que não escreverei, creio).
Títulos às vezes são problemáticos. Enganam. Prometem e não cumprem. Ou o contrário: são bobos, escondendo livros ótimos. Incomum é o caso de livros onde título e conteúdo estejam à mesma elevada altura. Exemplos? Promete e não cumpre: "Voragem" (ver post anterior). Título fraco e livro bom: "Trópico de câncer", Henry Miller. Título e livro bons: "100 escovadas antes de ir para a cama", Melissa Panarello.
O livro de Fernanda desanda. Não que seja ruim. Se tivesse outro título, talvez eu gostasse. Não gostei porque esperei uma coisa, e não encontrei. Sei que sou um leitor apenas, e várias interpretações podem ser feitas, e são válidas. Inclusive a da autora. Perguntaram a ela: "Por que você recomendarias às pessoas lerem "As pessoas dos livros"?". Respondeu: "Porque falo sobre o ofício literário e as pessoas dos livros certamente vão gostar."
Ela acha que o livro fala sobre o ofício literário. Eu não. Por isto, como uma "pessoa dos livros", não gostei.
* * *
PS: já que falamos sobre títulos de livros, um comentário sobre dois livros: "A insustentável leveza do ser", Milan Kundera, e "O apanhador no campo de centeio", de J. D. Salinger. Dois bons títulos (aliás, o primeiro acho sensacional, também um convite, uma ordem), para dois livros muito bons.
Cada livro deste possui um personagem principal. Só que o título, apesar de ser bom, não se encaixa no personagem principal, em nenhum dos dois livros. No "Insustentável", o personagem principal consegue sustentar a leveza de não ser nada, ou ser cada vez menos. Quem não consegue são outros personagens. No "Apanhador", quem apanha (salva) crianças à beira de caírem num abismo também não é o personagem principal, mas sua irmãzinha.
Dois casos de um bom títulos para um bom livro, embora um pouco desfocados, descolados.
Cartas à redação:
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LITERATURA
(idéias soltas sobre: Voragem, Junichiro Tanizaki)
Tenho o hábito não salutar de comprar mais livros que eu consigo ler, daí que é raro eu ler lançamentos, pois estes entram no fim da fila, a não ser que pareçam muito interessantes.
Leio agora Voragem, do japonês Junichiro Tanizaki (1886 - 1965). Atraído pelo título ("voragem" significa "aquilo que devora, subverte; abismo", lembra "voraz", lembra "coragem") e por ter lido que era "a história sensual de uma mulher casada que se apaixona em outra". Quando comprei, li a contra-capa: ela contva o final do livro (edição Planeta DeAgostini), como pode?!, e este foi também um dos motivos que eu deixasse o livro empoeirar, até que eu esquecesse o que tinha lido sobre o final.
Leio, então. O livro começa bem, em um ritmo ágil. O erotismo dá algumas amostras. Mas logo o trabalho perde o encanto. Vai ficando, aos poucos, horrível.
A contra-capa chama o de "uma das obras-primas" do autor - mas não podemos confiar na própria editora de um livro . Fui atrás de outras opiniões, na web, porque pareceu-me que já havia lido resenha positiva sobre ele.
Colho que este seria seu sétimo, entre 20 romances.
Tenho impressão que os resenhistas e eu não lemos o mesmo livro: todas as poucas críticas que achei são boas. Ou não lemos com o mesmo olhar, talvez eu seja mais crítico.
Se uma personagem é muito estranha, exagerada, até certo ponto não podemos culpar o autor por esta caracterização, porque se neste mundo há de tudo, porque não haveria alguém assim? Entretanto, as "forçadas" de enredo são mais difíceis de engolir. Concordo com o argumento de que um livro não conta as histórias banais. Devemos pensar que, se foi escrito, filmado, é justamente por ser uma história de exceção, mesmo que fictícia. Mas quando há um limite onde a trama deixa de ser verossímil, possivel, como é o caso deste livro, mudamos de categoria: do "realismo" (mesmo que inventado) para o "fantástico".
São tantas as reviravoltas que a história fica absurda. O modo como as personagens se sujeitam às situações é inacreditável. Por qualquer coisa todos falam em se matar. Toda hora choram, e não é pouco: "Naquela noite, nós dois choramos até amanhecer." Neuróticos, todos. Mas não parece ter sido a intenção de Junichiro fazer um "romance fantástico psicológico". Nem um romance psiquiátrico!
O livro poderia ser lido como um policial, pois boa parte do volume são investigações feitas pela narradora. Mas são investigações sobre o nada, rasas, dúvidas que surgem em sua cabeça, sem que algum crime tenha ocorrido. Um policial sem crime? Creio que também não foi a intenção.
Lendo-o, lembrei-me do autor do Blog do romance, site maravilhoso onde "destrói", (ou reconstrói?) todos os livros que lê, quando falava que na página 76 de Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva, teve vontade absoluta de parar de ler. Comigo isto aconteceu, em Voragem, na página 164. O livro ia até a 240. Continuei por estar 1) sem sono; e 2) seduzido não mais pelas virtudes do livro, mas mais interessado em como um livro conseguia se autodestruir.
Há contradições significativas em algumas caracterizações. Exemplo: na mesma página lemos que "(...) o próprio Watanuki não tinha nenhum interese em apressar o casamento(...)" e "(...)ele sonhava casar-se e viver com uma mulher(...)".
O livro é narrado pela protagonista a um sensei, o qual o leitor toma o lugar, pois este senhor nada diz e não interfere em nada. Então, por que existe?.
Não sei se o seguinte deslize foi da tradução, feita por uma sobrinha do autor, ou da edição: a história é contada pouco tempo depois dos fatos terem ocorrido, mas há um trecho que diz "era fato que, na época, os abortos eram severamente reprimidos".
A parte que poderia ser boa, só ameaça. É onde se diz que o amor de uma mulher por uma mulher é diferente do amor de uma mulher por um homem. Mas o argumento é apenas uma desculpa da personagem para seu marido, e não é desenvolvido.
O título promete e não cumpre: a história é voraz (ligeira, caótica), mas não encontramos um aprofundamento narrativo interessante. Mesmo considerando que o livro veio à tona originalmente em 1928, ele não fala mesmo de um beijo entre as duas mulheres - que tipo de homossexualismo é este? Apenas o do desejo? Mas nem mesmo este é desenvolvido.
E o final é contado bem antes. Não falo agora da contra-capa, mas dentro do próprio livro mesmo!
Esta obra, parece-se muito com aqueles livros ruins feitos em papel jornal com histórias, apesar de rocambolescas, sem conteúdo algum. Mas publicado como se fosse um bom livro. O que causa um certo desconforto. O produto trash tem seu valor dentro de sua categoria, mas o trash que se passa por bom nos engana. Talvez seja mais trash ainda...
Cartas à redação:
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LITERATURA
GUIAS DE LEITURA
(sobre: 100 autores que mudaram o mundo)
O título do livro, "100 autores que mudaram o mundo", exposto, me deixou em dúvidas: falaria de autores de literatura ou de autores de um modo geral? Porque entre autores que "mudaram o mundo" poderíamos incluir desde a Declaração dos Direitos do Homem até os escritos científicos de Einstein. Folheei. Era apenas sobre literatura, e como o tema me interessava, comprei. R$ 36,00, Prestígio Editorial, de Christine N. Perkins, 226 páginas.
Mas até que ponto a literatura pode mudar o mundo? Vá lá que alguns livros podem mudar um pouquinho mundo, mas o título é altamente pretensioso, perdoado apenas se considerarmos isto como um chamativo de marketing. Contudo, um mérito do título é não dizer que são os únicos que mudaram a história da literatura, nem que são os 100 mais importantes. São 100 entre os importantes, apenas. Isto já absolve a autora de críticas como a ausência de nomes renomados como Baudelaire, Flaubert, Balzac, Sade, Kafka. São nomes altamente reconhecidos entre nós, mesmo que nunca tenhamos lido nada deles, ao passo que para boa parte de nós são desconhecidos nomes como Alice Walker, Joyce Carol Oates e Louisa May Alcott. Se nos lembrarmos que a autora é americana, fica mais fácil compreender tais escolhas. Reflito: talvez uma das poucas vantagens de ser subdesenvolvido seja receber várias influências, de acordo com o poder de cada época: já fomos obrigados a lermos portugueses, europeus de um modo geral, e agora americanos - ao passo que as potências têm uma tendência ao hermetismo. Divagações... Aliás, no livro há muitos autores brasileiros: Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Drummond, Graciliano Ramos, Machado de Assis. estranho. Não que não sejam importantes, mas duvído que o original contivesse tantos, creio mais em uma adaptação feita à edição brasileira.
Enfim, o que é o livro? Foram escolhidos 100 autores, entre clássicos, outros nem tanto, e mesmo alguns best-sellers atuais (como Stephen King, Anne Rice e Michael Crichton) e, para cada autor deste, são dedicadas 2 páginas com um pequeno resumo biográfico e a importância de suas obras.
O fim do século avivou a mania das listas dos "melhores de todos os tempos". O filme "Alta Fidelidade" também ajudou, com a mania do protagonista de fazer, para tudo a lista dos "Top 5". O renomado crítico americano Harold Bloom lançou, há alguns anos, "O cânone ocidental", a sua lista com algumas dezenas de nomes fundamentais na literatura. A Folha de São Paulo fez algo mais democrático: solicitou a 10 pessoas (autores, críticos, etc.) que listassem os 10 romances mais importantes do século que acabou, e somou os votos, tendo produzido também seu ranking. Cada lista desta contém alguns nomes em comum mas muitos diferentes uma da outra.
Então, quais são os autores mais importantes do mundo, afinal? Depende da definição que adotarmos de "importância". Seriam os mais vendidos de todos os tempos? Poderia ser, mas feitas algumas ressalvas: 1) alguns autores só são descobertos após sua morte, ou seja, muitos que hoje não são importantes poderão ser, no futuro; 2) muitos livros são vendidos não porque os leitores querem comprar, mas porque são obrigados (quem de nós nunca teve que comprar um livro de Machado de Assis na escola?); 3) a população que pode comprar um livro hoje, teoricamente é bem maior que há algumas décadas, e esta "inflação demog'rafica do mercado" teria que ser levada em conta. De qualquer forma, se fossemos apenas por esta categoria Paulo Coelho é um autor muito mais importante que Carlos Drummond de Andrade, por exemplo.
Ou importante seria um escritor que influenciou vários outros, mesmo que seja pouco lido e conhecido? Por este critério, creio que os mais importantes talvez fossem os autores da Bíblia. Sem dúvida, no Ocidente qualquer um de nós já teve um contato, e geralmente precoce, com suas histórias e com seu jeito de contar estas histórias.
Ou importante são os inovadores? James Joyce escreveu um livro em que apenas uma palavra às vezes reunia dezenas de idiomas (Finnegans Wake, cuja versão brasileira "Finnicius Revem" acaba de ganhar o Prêmio Jabuti 2004 de melhor tradução - aliás, não folheei o livro, mas tenho cá comigo uma dúvida: se o livro foi escrito em várias línguas, é um procedimento honesto traduzí-lo?). Mas é um livro praticamente ilegível à mais de 99% da população mundial, que mal conhece o próprio idioma, quanto mais algumas dezenas. Alguns dizem que não se precisa entender o significado das palavras, mas apenas captar a musicalidade delas. OK, mas quem fez isto, na prática?
O verdadeiro cânone, então, a verdadeira compilação dos livros mais importantes da literatura desde os seus primórdios, pode ser realizada de duas maneiras distintas: a particular e a universal. Ou seja, há uma lista que cada um possui de seus livros preferidos, e uma lista que pode ser formada através do somatório das opiniões gerais. Grande é a chance de divergência entre estas duas. Como disse a ensaísta Leyla Perrone-Moisés sobre o livro de Harold Bloom: "O livro dele não tem o direito de ser chamado de "O Cânone Ocidental". Na verdade, é o cânone de Bloom.".
A quem interessa, então, um livro como este? A muitos de nós, a quem quer saber a opinião de alguém que possivelmente leu ou pesquisou mais que nós sobre quem seriam os autores mais significativos.
As biografias são curtas, e fala-se pouco das obras. Tanto os grandes nomes quanto os menos conhecidos têm o mesmo espaço, o que não faz como que o iniciante distingua uma coisa da outra. O ideal seria que houvesse um trecho curto de cada obra clássica. O livro cresceria, talvez sendo necessário reduzir o número de escritores citados para se manter o preço de capa.
É um guia de leitura, um bom guia, um início. Como é bom qualquer lista dos melhores feita por qualquer um que conheça um pouco mais, ou algo diferente, que nós.
Cartas à redação:
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MÚSICA
O RISCO DE SE GOSTAR DE SANDY & JÚNIOR
(sobre: Carla Bruni)
Nada impede que Sandy & Júnior façam uma música boa. "Façam" talvez seja um exagero: cantem. E nada impede que você goste desta música. Mas daí a gostar deles como artistas seria demais: são apenas intérpretes esforçados.
Cássia Eller nao compunha nada. Mas era uma intérprete sensacional. Uma atriz da música.
Há quem componha bem e não cante nada. Etc etc.
Mesmo artistas considerados honestos fazem músicas desonestas. Música desonesta é aquela feita só para encher o álbum, porque convencionamos que um CD tem que ter us 60 minutos de música. O interessante é que, como gosto é gosto, muitas pessoas gostam das coisas desonestas, e só de ouvir na maioria das vezes é difícil distingüi o desonesto do honesto.
Escuto pela primeira vez em uma rádio, que não sei se tem procedência de "honesta" (eufemismo para "metida a besta") ou não, uma música que me agrada. De uma cantora que nunca ouvi falar antes. Devo gostar dela ou não? Gostar é imediato, já gostei. Mas é brega gostar dela? Terei que esconder este fato dos meus amigos cultos?
Gostei de Carla Bruni. Voz suave e violão, cantando em francês. Mas será uma Sandy da vida, execrada pelos pensantes de seu país? Vou às pesquisas na internet. No Altavista, somente 22 citações em português.
Alguém escreveu em seu diário, deslumbrada: "A música é algo tipo Marisa Monte. Pode?". Como se encontrar alguém que cante parecido com Marisa Monte fosse a coisa mais inesperada do mundo!
Em uma busca rápida encontro o seguinte: italiana, nascida em 23/12 (como eu! já simpatizei) de 1968. Mora na França desde seus 5 anos. Ex-modelo famosa, embora com curta carreira, que abandonou para dedicar-se à música, atualmente. Se CD, de 2002, "Quelqu`un m`a dit" foi bem recebido pelo público (no qual me incluo. Rapidamente, deixe-me competar com minhas impressões: suas letras têm poesia e bom-humor).
E leio que o disco foi bem recebido pela crítica também.
Ufa! Taí a informação que eu queria: foi bem recebido pela crítica.
Eu gosto de algumas músicas do Engenheiros do Hawai, mas ele foi tão esmagado pela crítica musical que quem lê este tipo de informações fica meio constrangido de gostar. Tem-se a sensação de ser um pouco burro, vulgar, quando se gosta de algo que alguém destrói. Quem me salvou foi o próprio Humberto Gessinger, quando em uma entrevista recente afirmou mais ou menos o seguinte: que não entendia porque o Engenheiros fez tanto sucesso, pois era pra ser uma banda mais ou menos. Ah, bom, agora sim. Eles não tem a pretensão de serem os mais. Nem eu sou fã incondicional. E o crítico que detona tudo que eles fazem está batendo em cachorro morto, pois eles mesmo não empinam o nariz. Pronto. Minha redenção.
Contudo, agora a bola da vez é o Charlie Brown Jr...
Cartas à redação:
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MÚSICA + POLÍTICA
OLHANDO SOBRE O MURO
(sobre: Le Mouv)
Às vezes pensamos que a tal história da "dominação cultural americana" é apenas conversa de "professor-de-geografia-de-geografia-petista". Aqueles do primeiro grau, que nos ensinaram o que era capitalismo e comunismo, quando este último ainda teimava em existir.
- Dadinho o caralho, meu nome é Zé Pequeno!
- Globalização o caralho! "Cidade de Deus" foi indicado a 4 Oscars, e isto pode sim ser um indício de que o mundo está mais aberto à outras culturas que não à americana. (Embora existam pessoas que acreditam que tanta moral ao filme foi apenas um gesto de conciliação política com o Terceiro Mundo). Mas de um modo geral o império americano é onipresente. Quantos filmes viste ano passado que não eram americanos ou brasileiros?
Quem deseja conhecer produtos de qualidade de outro país não tem facilidades. Por exemplo, estudo francês, e quem disse que acho livros em francês para comprar? Na "mega-store" (e não "mega-loja") do shopping, apenas uma prateleira de livros importados, e todos em... (inglês, claro). CD`s? Revistas? Filmes?
Existe todo um universo fora dos EUA, de alta qualidade e que não nos é acessível. Chegam-nos algumas coisas, e quem deseja mesmo tem que procurar bastante.
E a famosa revolução que a internet faria? Não fez. Faz para quem procura, mas não para quem não tem tempo, ou disposição para ficar vasculhando. (E dinheiro, claro, para pagar a conexão, os livros importados, etc.)
Você sabe o que é Bollywood? Hollywood produz 300 filmes por ano. Bollywood produz 900. Além de novelas, músicas. É a indústria cinematográfica da Índia. Já ouviu falar? Nem eu. O mais perto que você deve ter chegado é se assitiu "Moulin Rouge", musical com a Nicole Kidman, que tem uma estética parecida com a "bollywoodiana".
Por que ocorre o fenômeno? Várias razões. Não quero me delongar:
1) as indústrias americanas são as mais poderosas, financeiramente. Logo, podem distribuir mais eficientemente seus produtos e fazer um marketing enormemente mais agressivo.
2) estamos mais acostumados aos americanos que ao resto do mundo, e gostamos de várias coisas - pra que procurar o bom se já temos o bom?
3) Falar em "medo do novo" seria demais, talvez "preguiça do novo". Coisas novas levam um tempo e certo trabalho para serem assimiladas, e como diria o verdadeiro herói brasileiro, Macunaíma, ou mesmo o verminado Jeca Tatu de Monteiro Lobat: "Ai, que preguiça...".
Sem este papo de que os EUA sejam "malvados" ( o velho professor achava: "Olhem como em todos os filmes americanos aparece a bandeira dos EUA."). Besteira, a maior parte dos produtores não querem "dominar culturalmente" o resto do mundo - quer apenas dinheiro. Normal, né?)
OK, papo chato que finalmente chega na parte boa: as dicas de coisas alienígenas interessantes. Uma rádio francesa, pública (ou seja, sem comerciais), que toca coisas boas em inglês (ufs!) e francês: "Le mouv". Abaixe um pouco a página e clique em "s`inscrire". Ao preencher o formulário, não esquecer de confirmar a seguinte caixinha: "J'accepte le réglement de la communauté du site lemouv'" ("Aceito o regulamento da comunidade do site lemouv"). É fácil e rápido.
Se quer mais mastigado ainda, baixe no Kazza as seguintes músicas (biscoitos finos):
- imperdíveis:
* artista: Tété; música: "A la faveur de l àutomne" (aqui, letra e tradução - minha, perdoem)
* Carla Bruni; "Quelqu'un m'a dit"
- e mais algumas outras:
* M.; "Qui de nous deux"
Mesmo que você não entenda completamente o significado, acho que compensa buscar as letras das músicas. Eu pego em ABC-tabs. Já vem com tablatura, se quiser arriscar tocar um violão e fazer um charme em um luau.
Ao passo que eu descubra mais coisas, deixo as dicas aqui (façam o mesmo!).
Cartas à redação:
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MÚSICA + GOOD VIBRATIONS
PUTA QUE PARIU! PUTA QUE PARIU MEESSMO!!!
(sobre: Cordel do Fogo Encantado)
Eu não gosto de usar palavras maiores do que são (por exemplo: ao invés de dizer que algo é "demais", dizer que algo é "demaaaaaaais", nem usar três sinais de exclamação de uma vez (!!!). Guardo estas licenças lingüísticas para ocasiões especiais. E desta é. É meeessssmo!!!
Acabo de chegar do show da banda "Cordel do Fogo Encantado". Eles são do Nordeste (sertão de Pernambuco) e o som é meio folclórico. Ou seja, coisa que fujo, habitualmente. Tanto que tenho um disco deles e nunca ouvi uma música inteira. E acho que nunca vou ouvir, o meu CD vou dar para uma pessoa.
Mas o show deles, o show! Que show!
Antes de ir já tinha ouvido dois comentários de que era "muito bom". Mas isto não diz nada. No jornal, a foto do cantor dava a impressão de ser meio romântico, parecia aquele que dizem que imita o Djavan (como é mesmo o nome? Ah, Jorge Versilho, Versinho, sei lá). Pra terminar, o vocalista ainda se chama "Lirinha". Tudo conspirando para ser um fiasco. Mas, vamos lá, era baratinho o ingresso mesmo (R$ 3,00).
Durante a primeira música eu estava comprando um acarajé e só senti o peso da percussão, muito bom.
Mas na segunda cheguei perto do palco, e aí! O tal Lirinha é sem noção!
Tentarei descrever uma música. Tambores e seus mil nomes são o apoio pro show de Lirinha. O cara se balança todo, grita, se joga. Tem os olhos vidrados, distantes, olhando para cima boa parte do tempo. É teatral, exagerado, desgraçado. Um carisma fenomenal. Uma camisa branca de golas vermelhas suja de vermelho me diz que era uma camisa-de-força e aquilo era sangue, o cara só podia estar fugindo de um hospício.
Ah, não adianta, não tenho como definir a cena. Só tentem imaginar um cara muito louco e muito feliz. Felicidade contagiante. Que faz arrepiar.
O show do cara é um marco. Depois dele não há como um artista pensar em fazer menos, em se dar menos. Faz o poeta reprimido querer sair declamando, faz tetraplégico levantar e andar. É milagre sim. Eu me arrepiei, dava vontade de chorar sentindo ali de perto tamanha energia.
Se aquilo for pó, eu quero cheirar, se for loucura parem meus remédios, se for liberdade me soltem! Você quer estar lá em cima, fazer aquilo, ser aquilo.
Guardem este nome, Cordel do Fogo Encantado. No dia que ouvir dizer que estarão na sua cidade (estarão em São Paulo e Salvador, nos próximos dias, sim, conversamos um pouco com os caras depois do show! Nada melhor que os pequenos festivais!), quando estiverem, vá e dê um jeito de chegar bem perto do palco.
Já vi gente dizendo que um dos grandes arrependimentos da vida foi não ter ido a um show do Nirvana, ver Kurt Cobain se acabar no palco. Não vá ter outro motivo de arrependimento nesta vida!
PS: isso porque nem falei do que o show tem de poesia, e humor, e amor.
Escrito por Fernando César
01/11/2003
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SEXO + LITERATURA
A ANCESTRAL ARTE DE AMAR
(sobre: A arte de amar, Ovídio)
Todos os meses nas bancas, revistas como VIP ou Playboy almejam ensinar aos homens, em matérias de capa, ou seja, como grandes descobertas e novidades, a arte da sedução. Os títulos das reportagens são chamativos. E o conteúdo, no fundo, é bastante repetitivo. Livros de auto-ajuda também ensinam aos homens estes "segredos".
Mas grande surpresa tive eu ao encontrar o que pode ser o primeiro deste tipo de livro. É um pouco antigo... Deve datar mais ou menos do ano 80 d.C. O livro se chama A arte de amar, e foi escrito por Ovídio. Ele ficou considerado um dos autores mais imorais, porém outros escreveram coisas bem mais picantes - qual a razão então? A imoralidade foi tentar transformar em regras, dicas, ciência, o que o romantismo dizia que deveria ser natural - a atração, a sedução.
A época de Ovídio não era mais imoral que seus escritos, embora ele fizesse parte do mecanismo que incentivava o espírito libertino da época. Isto se passou em Roma, no século I. Ovídio era uma espécie de Don Juan, confessando que amava todas as mulheres, desde que belas e com menos que 40 anos. Vale dizer que escreveu também textos "mais sérios" e reconhecidamente bons. Mesmo assim, o imperador Augusto, conservador, o relegou ao exílio. Ao que parece, a gota d`água foi Ovídio ter testemunhado orgias da neta do imperador e ter mantido-se silente sobre os fatos. Mas, no exílio, continua "fútil e frívolo. A solidão não o melhorou em nada". (prefácio, editora Martin Claret)
O livro que comentamos é fácil e rápido de ler, é inundado de metáforas e de citações da mitologia. Tanto que possui 569 notas de rodapé! Mas pela grande parte delas pode se passar ileso, sem mesmo ler, sem atrapalhar a fluência.
Vamos às dicas. É realmente impressionante! Exatamente tudo que se diz hoje já estava dito. Um bocado de exemplos, levemente adaptados - (visto não termos coliseus, gladiadores e corridas de biga):
* "Esteja, antes de tudo, intimamente persuadido que podes conquistar todas as mulheres; e elas serão tuas." "Se for persistente, poderá conquistar a própria Penélope" (símbolo da fidelidade conjugal, casada com Ulisses).(Ulisses é o nome do meu pai e do meu irmão - piada semi-interna; sem comentários; rsss) "O amor furtivo agrada tanto ao homem quanto à mulher" (na capa da Playboy deste mês: "Exclusivo - Pesquisa Playboy comprova: elas querem transar sem compromisso). "Só que o homem não sabe dissimular e a mulher esconde muito melhor os seus desejos." Porém, "se o sexo forte não tomar a dianteira, a mulher vencida tomará para si este papel. Nos prados verdejantes, é sempre a fêmea quem, com os seus relinchos, chama o garanhão de duros cascos." "Ah, como é difícil uma mulher dedicar seu amor a um só homem! Na mulher a paixão é mais ardente que em nós e mais louca". E cita vários exemplos de loucuras femininas, sendo a mais interessante a de Pasífae, que (por umfeitiço) apixonou-se em um touro ("Ah, quantas vezes ela olhou com despeito para uma vaca e disse: "Por que esta agrada ao dono do meu coração?")
* bom, convencido de que pode, escolha um local com bastante mulheres, especialmente locais onde elas vão já com o espírito aceso, como os espetáculos (hoje, as boates); elas vão às ruas para serem vistas, não para verem; cuidados, porém: "A noite e o vinho são maus conselheiros para julgar a beleza."
* vá produzido, com a pele bronzeada, a roupa imaculada, o cabelo bem aparado. "Não crie, todavia, o hábito de frisar o cabelo a ferro. Deixe tais coisas para aqueles que procuram o amor de outro homem."
* aproxima o mais possível teu corpo ao dela. Olha nos olhos dela para que teus olhos lhe digam da sua paixão. "Tens de agir como apaixonado. E como toda mulher se julga digna de ser amada, ser-te-á fácil ser acreditado." "Muitas vezes ocorre que o simulador começa realmente a amar, e já não finge. Por issi vós, belas jovens, sede indulgentes, mesmo ao perceber que a paixão é fingida; é comum que um amor simulado se torne verdadeiro."
* trate de entabular uma conversa, e que suas primeiras palavras sejam banalidades.
* retire um cílio grudado ao rosto dela - se este não existe, faça de conta que existe - tudo serve de pretexto para ser cavalheiro. "Pequenas atenções cativam estas almas delicadas".
* quando engatar um assunto, fale como se conhecesse o tema a fundo.
* porém não faça alarde de tua eloqüencia.
* o primeiro fora: que mal há nisto? Continue a insistir, use outras táticas. Aos poucos ela cederá.
* quando dizem não, querem dizer sim.
* "Fala-lhe, dentro do possível, por sinais ambíguos."
* a embriaguez fingida pode ser útil.
* fique amigo das amigas dela, das pessoas à sua volta. "Perguntas-me se seria conveniente seduzir também a criada. Esta é uma prática arriscada."
* alguns momentos são mais oportunos. Um é quando ela está alegre. Outro é quando está nervosa porque descobriu uma rival na disputa de um outro amante.
* o dia do aniversáiro dela é uma má escolha: "a mulher domina a arte de espoliar o amante apaixonado." "Freqüentemente as mulheres te pedem coisas, dizendo que as devolverao logo em seguida, e não as restituem. Dê-as por perdidas."
*mas "prometa sempre, não custa nada; todos podemos ser ricos em promessas." "As promessas prendem as mulheres!" "Júpiter observa rindo os perjúrios, ele próprio jurava a Juno..." "Engana aquelas que enganam. Na maior parte dos casos elas não têm escrúpulos. Que caiam pois nas próprias armadilhas." "O mais difícil, o trabalho delicado, é obter primeiro os seus favores sem oferecer presentes."
* a insistência tem seu momento certo, não se deve importuná-la demais; aguarde o momento de voltar e retire-se. "Quantas desejam o que lhes escapa!"
* Insinue-se como amigo dela.
* "Lágrimas também são úteis; com elas amaciarás até o diamante." Esta é ótima: "Se as lágrimas te faltarem, molha os olhos com a mão." (rsss). O que sofre deve ser pálido, magro, "e não te acanhes de cobrir a tuabrilhante cabeleira com um capuz, com fazem os doentes."(Meu Deus, que desespero é este?)
* e o tão desejado beijo? "Ainda que não te retribua os beijos, rouba-os. Mesmo resistindo, deseja ser vencida."
* Mas "roubar um beijo e não colher o resto, merece perder até os favores concedidos.Isto seria fazer papel de tolo!" "Aquela que se retira intacta quando poderia ter sido desfrutada, pode até figir alegria, mas na verdade está triste."
Foi conquistada. Ufa!
A arte de amar é composta por três livros. O primeiro é este que enxuguei acima. O segundo é sobre como manter sempre sua a "amiga" ( é assim que ele as chama).
* "Não é para rico que dou lições, quem pode presentear não precisa delas."
* de nada servem fórmulas ou feitiços (mexeu contigo, Fátima!).
* a beleza é frágil, cuida de enriquecer o espírito.
* seja calmo; se ela te receber mal, tenha paciência.
* habitue-a à sua presença. Quando achar que sua ausência causará inquietação, afaste-se. Mas não por muito tempo. Ou ela não poderia ser culpada se outro amante arranjasse.
* segure o espelho para ela, retire suas sandálias. Não se atrase aos compromissos. "O amor é uma espécie de serviço militar." (tenho amigos que são quase sargentos já!)
* uma cesta com prendas rúsitcas, uvas e castanhas muito lhe agradará ( que novidade a nossa!).
* "Louva-se a poesia, mas o que se espera sào presentes valiosos. É o ouro que proporciona maiores honras. É verdade que há mulheres cultas, mas são um grupo pouco numeroso." (são as que podemos encontrar lendo Dias Confusos!)
* "Faze-a acreditar que estás maravilhado com sua beleza." "Chamarás de esbelta aquela a quem a magreza mal deixou a vida. Diràs às pequenas que são ágeis, e às gordas que são bem apanhadas. Ou seja, disfarçamos o defeito com a qualidade mais próxima."
* "Não indagues sobre sua idade, principalmente se já arranca os cabelos grisalhos."
* evite que te acusem de traidor. "Não é que eu vos condene a ter apenas uma amiga. Tal coisa não agrada aos deuses."
* apenas seja prudente, não siga hora fixa para a infidelidade, não vá sempre aos mesmos locais. Não alardeie suas conquistas. "Ofendida, Vênus toma justamente as armas e revida os golpes recebidos e faz que também tu tenhas o que lamentar."
* "Se teus atos vierem a ser descobertos, nega-os até o fim." "Não te mostres mais submisso ou carinhoso que o costumeiro; esses são indícios certos de culpabilidade." E a maior prova de culpa é deixar, naquela noite, de dispor da carne dela. Se necessário, use meios como a cebola branca de Mégara, ou ovos, amêndoas e pinhões. (a famosa pílula azul).
*porém há casos, como quando a mulher julga que o homem já lhes pertence, que se deve confessar as infidelidades - "Seu amor enfraquece se não tem uma rival." "Quatro vezes feliz aquele cuja amante tanto chora por ter sido traída." Mas deixe que sofra por pouco tempo, para sua cólera não se reforçar. "trate de abraçar logo seu colo alvo e apóia seu rosto banhado sobre o teu peito. Dê-lhe os prazeres de Vênus. Será feita a paz."
* como lidar com rivais? "O melhor de tudo é ignorar. Deixe-a esconder suas infidelidades. O amor dos amantes só aumenta quando é perseguido." "Se possível, abrace o inimigo, trate-o muito bem."(o famoso "me engana que eu gosto")
* e os benefícios de tanto trabalho? "Conforme a tua fantasia, estarão dispostas a mil posições no amor; nenhuma coletânea de pinturas voluptuosas imaginou tantas poses.
* "Não devemos apressar o fim da volúpia, mas alcança-la aos poucos, por uma excitação progressiva." (o sexo tântrico).
* "E aqueles que, graças ao gládio recebido das minhas mãos, triunfarem sobre uma Amazona, inscrevam nos despojos:"Ovídio foi o meu mestre."
O livro terceiro foi escrito para as mulheres, para que não entrem desarmadas nesta luta, para que saibam como conduzir um jogo de sedução. Enfim, um jogo onde os dois lados teriam as mesmas armas, e o empate é um resultado que agradaria a todos. Os conselhos desta terceira parte nada diferem da Marie Claire, da Cláudia, da Capricho, da Nova. Certo que naquela
época os brinquedinhos não eram tão sofisticados. (Vi num sex-shop um vibrador de borracha feito para esquentar no micro-ondas!)
São dicas de cuidados pessoais, maquiagem, de moda, penteado (é incrível como estão atuais! - imaginando-as, deu-me até vontade de ter uma amiga romana!), de comportamento... algumas das melhores:
* "Tenho que avisá-las que o cheiro de bode não devem exalar de vossas axilas." "Se teus dentes são mal alinhados, evitem a proximidade com homens que te façam rir."
* Não deixe que cheguem sem avisar. "Certa feita, anunciaram à minha bela minha chegada inesperada; perturbada, ela colocou a peruca ao contrário."
* "Não bebas até que vejas em dobro."
* aproveitem a vida antes que envelheçam.
* se te enganam, o que você perde com isto? "O ferro desgasta-se com o uso e a pedra torna-se menor; mas aquilo a que me refiro resiste ao desgaste e não há que temer o menor dano."
Não falarei demais, vocês já sabem bastante o que fazer. Ainda há ensinamentos sobre fingir na "hora H", enganar sem ser descoberta, etc.
"Não peçam mais do poeta do seus versos. Explore de cada um o que pode dar, apenas. Nós saberemos amar com lealdade, muita lealdade."
* e enfim, "a mulher pequena deve adotar a posição do cavaleiro; a que tem um semblante belo, deita de costas. A muler que é para ser admirada pela linha doseu flanco, ficará de joelhos na cama."
"Como antes aconteceu com os homens, que agora as mulheres, minhas alunas, escrevam nos seus troféus: "Ovídio foi o meu mestre!""
Ovídio foi o pai de todos nós! Evhoé! Abra-se mais um garrafão, coloque-se uma música! Evhion, Evhoé!
Escrito por Fernando César
05/10/2003
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CINEMA + LITERATURA
TUDO POR DINHEIRO?
(sobre: Dom)
Cometeram um assassinato. Mataram a obra que talvez seja a mais importante da literatura brasileira. O filme Dom se diz baseado na obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. No livro, a questão interpretativa gira na dúvida: Capitu traiu ou não Bentinho? A leitura atenta do romance não nos permite decidir seguramente pelo "sim" ou pelo "não".
Porém o filme não conseguiu manter a ambigüidade. Fala sobre os olhos de ressaca de Ana (vivida por Maria Fernanda Cândido - conseguir estes olhos com ela é fácil!), ou seja, os olhos buraco-negro, impossíveis de deles se escapar, mas não caracterizou os olhos de "cigana oblíqua e dissimulada", os olhos de uma pessoa que sabe mentir, fingir.
Assim, Bento (Marcos Palmeira) ficou caracterizado como um personagem quase psiquiátrico, alguém que delira de ciúmes da esposa.
O filme se passa nos dias atuais. Bento recebeu este nome porque os pais gostavam muito do livro Dom Casmurro. Bento ganha o apelido de "Dom". Na infância, gosta de Ana, e até lhe apelida "Capitu". Separam-se e se reencontram quando adultos. Então se casam, e ele passa a sofrer imaginando que ela o trái com seu amigo Miguel (Bruno Garcia).
O que queria o filme, afinal? Uma possível estória, inspirada, e não uma adaptação, que poderíamos derivar da idéia inicial, ou seja, alguém que se chama Dom, é que o nome lhe deixaria predisposto a ver traidoras em todas as mulheres. Mas o filme não permite esta interpretação.
Queriam fazer realmente uma versão atual do romance? Não conseguiu também; como dissemos, não resta dúvidas, o ciúme de Dom é injustificado.
Acho a explicação para o fracasso em alguns dados: o diretor é comercial, basicamente. É diretor de novelas. É o diretor de outros filmes basicamente voltados não para a arte, mas para lucros, como o novo da Xuxa e um com a Angélica, além do filme do padre Marcelo Rossi. Outro fato: o produtor submeteu o roteiro à testes até que achasse um final mais ao gosto popular. O texto final foi escolhido com base na meta de atingir 500 000 espectadores.
Ou seja, nunca se tratou de arte, mas de comércio! Por qual razão o filme não é ambientado, por exemplo, há cem anos passados, como no livro - contenção de despesas, claro. Além do quê, filmes "de época" devem atrair menos pessoas. Lucro igual custos menores que ganhos.
Interessante notar que Maria Fernanda ganhou um prêmio no Festival de Gramado por sua atuação. Dentro do que foi exigido deles, os atores se saíram bem, não é deles a culpa.
Enfim, queriam atingir 500 mil espectadores.Tomara que não! Poucos lêem no Brasil, e os que virem o filme ainda terão uma idéia errada do que é um dos maiores livros talvez da literatura mundial.
Os que conhecem e veneram o livro, como eu, foram com gosto ver o filme, e certamente se decepcionaram. Aguardamos que algum artista se disponha à nova filmagem.
Escrito por Fernando César
04/10/2003
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MÚSICA
EM BUSCA DA COSMOGONIA
(sobre: Cosmotron, Skank)
Cosmogonia: teoria que tem por objetivo explicar o nascimento (e, assim, abarcar todo o funcionamento) do mundo.
Cosmotron: título do CD novo do Skank. O que significa o sufixo "tron"? Suponho que, junto a "cosmo", simbolize a integração do Universo à eletrônica.
Mas o CD nada tem de música "eletrônica". deduzimos então que eletrônica possa ser uma referência um pouco mais antiga, ao surgimento da eletricidade na música, ou seja, a guitarra. Mas, ainda assim, o CD não tem o peso destas. As melhores músicas são as mais leves. (E o CD é o melhor do ano, ao lado de Ventura, do Los Hermanos.)
Óbvio que estas interpretações, e todas as seguintes, podem nada ter a ver com o objetivo real dos artistas - é o risco que correm, sempre.
E a cosmogonia nesta história?
O disco é muito coeso, e os cantores já tem certa idade (maturidade). À primeira audição, tive portanto a impressão, a isto aliando-se o "cosmo" do título, que o grupo tenha tentado uma cosmogonia neste CD. Ou seja, um CD onde a união das músicas é maior que a soma simples das músicas!
A maioria dos CDs é um ajuntamento de músicas que nada tem a ver uma com as outras, nas letras. Os CDs que tentam diferente, uma história maior, uma filosofia etc, são chamados "conceituais" - exemplo: The Wall, do Pink Floyd.
O que tentaremos ver aqui é se este foi realmente o objetivo e, se sim, qual a idéia básica por trás do CD.
Faixa a faixa:
Faixa 1 - "Supernova"
É nítido, direto e inquietante
Eu diria totalmente extravagante
Nosso amor é agressivo
No seu ímpeto lascivo
De amizade escarnada no desejo
Não tem calma ou forte sim (?)
Da sua presença
Fecundando minha alma
E o fundo do poço
Onde me jogo simplesmente
Por esporte boêmio
Mas é tão sério e maluco
Tá por um fio de tensão
No universo das paixões,
Amor assim, é supernova
Certeiro na veia da carne d`alma
Na carne d`alma
Ontem aquele máximo
Poder de um casal
Que é só
O mesmo destino de um pro outro
.: Supernova é a estrela que está nascendo. Um fenômeno intenso. Porém um certo ceticismo quanto ao futuro deste relacionamento.
Faixa 2 - "As Noites"
As ruas desse lugar conhecem bem
As noites longas, as noites pálidas
Quando eu te procurava
As casas desse lugar se lembrarão
Do nosso abraço, da sombra insólita
Espelho azul no chão
As ruas desse lugar, agora eu sei
Sempre escutaram a nossa música
Quando eu te respirava
As pedras municipais se impregnaram
Da dupla imagem, da dupla solidão
A sombra ali no chão
E lá no céu, constelações
Num arranjo inusitado
O seu nome desenhado
Pelo menos tinha essa ilusão
E lá no céu, os astros
Num arranjo surpreendente
Se buscavam como a gente
Pelo menos tinha essa ilusão
São milhares de estrelas
Singulares, letras vivas no céu
.:O céu noturno como espelho da vida, dos amores. Por outro lado, concede vida ao inanimado (animismo). Fala da atual solidão, ilusão.
Faixa 3 - "Pegadas Na Lua"
A parte que me cabe nesse peito seu
Novamente vai se lembrar
Sua boca era silêncio, a Terra queria girar
A parte que me cabe no teu sonho ateu
Novamente quer acreditar
Em universos infinitos sem nenhuma luz pra te cegar
A parte que me cabe nesse peito seu
Novamente vai respirar
Em lugares abafados onde ninguém vai passar
A parte que me cabe nesse espelho seu
Novamente vai desejar
O que parece inatingível
Mas faz o mundo melhorar
Eu sou uma força jorrando palavras pelos canos
De vitrines em ruas, por onde você vai trafegar
Eu sou essa força abrindo suas gavetas
Tirando palavras que podem até te contar
Eu tenho uma força que deixa pegadas na lua
Na esquina por onde você também vai levitar
.:A distância entre o real (separação) e o desejo (união) - desfeita por forças imensas, hiperbólicas.
Faixa 4 - "Amores Imperfeitos"
Não precisa me lembrar
Não vou fugir de nada
Sinto muito se não fui feito um sonho seu
Mas sempre fica alguma coisa
Alguma roupa pra buscar
Eu posso afastar a mesa quando você precisar
Sei que amores imperfeitos
São as flores da estação
Eu não quero ver você
Passar a noite em claro
Sinto muito se não fui seu mais raro amor
E quando o dia terminar
E quando o sol se inclinar
Eu posso pôr uma toalha e te servir o jantar
Mentira se eu disser que não penso mais em você
Quantas páginas o amor já mereceu
Os filósofos não dizem nada que eu não possa dizer
Quantos versos sobre nós eu já guardei
Deixa a luz daquela sala acesa
E me peça pra voltar
.:Espera que ela volte. Sem alusão clara à cosmologia (apenas cita o Sol).
Faixa 5 - "Por Um Triz"
Brandiu assim o ferro quente
E seu rosto em minha mente
Foi queimando feito cicatriz
De corpo estreito quase ausente
O cheiro ardido e transparente
Era certo da questão o xis
Que o líquido fermente
Se separem as sementes
Ponham-se os pingos nos is
Que a lente do amor aumente
Faça em presença o que é ausente
Porque só se vive por um triz
Só o amor pode juntar
O que o desejo separou
Não poderia ontem se vestir de amanhã
Só o amor pode apagar
O que o desejo rasurou
Inventaria ontem
Pra existir amanhã
.: Uma traição e o retorno (?). O amor mais forte, a longo prazo, que o desejo.
Faixa 6 - "Dois rios"
O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro é a escuridão
O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto dois lados deram as mãos
Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
O que a voz da vida vem dizer
Que os braços sentem
E os olhos vêem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros sem direção
O sol é o pé e a mão
O sol é a mãe e o pai, dissolve a escuridão
O sol se põe se vai
E após se por o Sol renasce no Japão
Eu vi também
Só pra poder entender
Na voz a vida ouvi dizer
Que os braços sentem (...)
O meu lugar é esse ao lado seu no corpo inteiro
Do meu lugar, hoje o seu lugar é o meu amor primeiro
O dia e a noite, as quatro estações
.: Merece reflexão maior por ser a primeira música de trabalho do CD. O Sol e o céu são citados ostensivamente.
O céu é dividido em partes, como a que toca o chão e a mais alta, mas elas se dão a mão. Até mesmo há o céu que vai além do horizonte, sendo a noite quando num lado é dia. "Como eu fiz também", pra entender e conhecer (sabedoria completa, da vida), que deságua no clímax da melodia, que é "que os lábios sejam/ dois rios inteiros / sem direção". Ou seja, um excesso de sensorialidade (no beijo, especialmente).
Uma letra complexa, talvez permita outras interpretações e difícil até de decorar - a maioria dos que pedem a música na rádio pouco saberia cantar além do refrão, gostam apenas da melodia e pensam que fala de amor, e isto basta.
Escrita por Nando Reis (o ruivo que era do Titãs), que também usou a astronomia em "O segundo sol", sucesso na voz de Cássia Eller.
Faixa 7 - "Nômade"
A minha casa está onde está o meu coração
Ele muda, minha casa não
No campo, em minas, terras gerais ou qualquer lugar
Onde estou, a minha casa está
Meu endereço é o sítio estrelado de norte a sul
Ele muda a cada estação
Na boca do sertão, na varanda do seu olhar
Onde estou, a minha casa está
A minha carne é feita de tudo que vai e vem
Tempo, nuvem, aflição também
Encontro e perda ao mesmo tempo, eu não vou parar
Onde estou, a minha casa está
Porque que eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade
Porque quando paro sou ninguém
Não declaro onde ou quem
Nômade
Porque eu sou apenas movimento
Sou do mundo, sou do vento
Nômade
Porque quando passo sou alguém
Sou do espaço, sou do bem
Nômade
Sou nômade
.:
Faixa 8 - "Vou Deixar"
Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Estou no meu lugar
Você já sabe onde é
É, não conte o tempo por nós dois
Pois a qualquer hora posso estar de volta
Depois que a noite terminar
Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Seguir a direção
De uma estrela qualquer
É, não quero hora pra voltar, não
Conheço bem a solidão, me solta
E deixa a sorte me buscar
Eu já estou na sua estrada
Sozinho na enxergo nada
Mas vou ficar aqui
Até que o dia amanheça
Vou me esquecer de mim
E você, se puder, não me esqueça
Vou deixar o coração bater
Na madrugada sem fim
Deixar o sol te ver
Ajoelhada por mim, sim
Não tenho hora pra voltar não
Eu agradeço tanto a sua escolta
Mas deixa a noite terminar
Eu já estou na sua estrada
Sozinho na enxergo nada
Mas vou ficar aqui
Até que o dia amanheça
.: Mais uma vez o Sol citado. A letra, porém, é sobre entregar-se a forças maiores, ir ao sabor delas, temporariamente, pois voltará à sua "prisão" depois.
Faixa 9 - "Formato Mínimo"
Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima
Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo um máximo
Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E, ávidos, gozaram rápido
Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida
O mundo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dar ao súdito
Desenhou-se a história trágica
Ele, enfim, dormiu apático
Na noite cega, a dose cálida
Ela dispertou-se tímida
Feita do desejo a vítima
Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente, épico
Transformado em jogo cínico
Pra ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica
.: Ela, romântica, ele conquistador - o desencontro. Tema banal, porém com raro jogo de palavras na música. A citação direta ao universo vem no verso difícil "O mundo redigiu-se ínfimo".
Faixa 10 - "Resta Um Pouco Mais"
Se você esqueceu meus nomes
Comece a guardar
Cada madrugada que eu te dei
Mas resta um pouco mais
Navios colossais
Que nunca deixaram o cais
Um pouco mais
Naufrágio de estrelas no céu
Uma razão cega pra viver
E um arbusto na praia ao léu
Se você esqueceu meus erros
Revele pra mim
Onde foi que eu desapareci
Mas restam nesses vãos
As cinzas que irão
Tornar-se a tela de minh`alma
Um pouco mais
Um corpo caído nas mãos
Silenciosas de uma mulher
E um tumulto no coração
Mas quando os meus olhos vão por ai
Levam juntos os teus
.: "Navios colossais que nunca deixaram o cais": atitudes que não foram tomadas - reultando no "naufrágio de estrelas no céu". História de uma separação, que ele ainda não absorveu totalmente.
Faixa 11 - "Os ofendidos"
Na estrada de Pompéia me apareceu um velho
Velhas roupas e chapéu e um olho cego
Me perguntou o que havia de novo nesse mundo
Eu disse guerra, crime, e ele: o mundo não me assusta
O mundo só...
Numa viela em Corumbá me apareceu um índio
Um cigarro em cada mão e um tênis só
Me disse que era de uma tribo subindo o Paraguai
Mas esta tribo já não há, e o mundo não me assusta
O mundo só me insulta
O mundo não me assusta
O mundo só...
Vou deixar, vou deixar você pensar
Que o tempo parou
Vou dançar, vou dançar até chover
Razões pra viver
Morder o calcanhar do tempo
Pro tempo correr
No fliperama do Senhor me apareceu o anjo
Olhos tristes e batom e uma ficha só
Me perguntou se eu precisava de alguma coisa ali
Eu disse sim, uma resposta, mas a pergunta me assusta
Mas a pergunta...
Num trecho entre Inferno e Céu os dois tão absortos
Torre, bispo, Diabo e Deus e um silêncio só
Segui em frente e pude ouvir um fio de conversa
Ele disse em claro som: "o mundo não me assusta"
O mundo só me insulta
.: Sobre o conhecimento do mundo levando ao tédio. Música que destoa do conjunto pelo ritmo pesado e pela citação específica à vários personagens.
Faixa 12 - "É tarde"
Se você olhar um pouco ao seu redor
Vai poder notar que a noite já caiu
Se você voltar pra casa e não achar ninguém
Vai notar que na cidade falta alguém
Se você ligar o rádio
Todas as canções irão dizer
"Goodbye, so long, my love"
Se você ligar o rádio
Todas elas juntas vão dizer
É tarde
Se você perdeu agora a ilusão
De que os fatos eram fios em suas mãos
Vai querer tirar do armário o velho violão
Vai notar que ainda falta uma canção
Você vai deixar na lista
Das tarefas de amanhã, chorar
Mais tarde
E quando o sol da manhã bater na porta
E quando nada lá fora agora importa, tudo bem
É tarde
.: Metalinguagem: música que fala que todas as músicas são iguais, que todas falam de amores e despedidas. E que sempre cabe mais uma. E que está vivendo esta situação de amor e despedida. Mais uma vez cita o Sol.
Faixa 13 - "Um segundo"
Não pense mais que você não é capaz
De cruzar estas esquinas
O mundo oscila realmente eu sei
Na beirada dos teus olhos
Pode acreditar
Diabo é quando não há mais poesia
O chão não está mais fixo do que seu olhar
Hoje pra ninguém
Mas veja só
Não torne esse peso maior, sem razão
Você tem todo o tempo
E mais um segundo pra se convencer
Você rapaz, na verdade é um a mais
Percorrendo o mesmo ciclo
O mundo oscila, realmente eu sei
Feito fogo nos teus olhos
Pode acreditar
Diabo é quando a lágrima não cai
O chão não está mais fixo em nenhum lugar
Hoje pra ninguém
.: O mundo é instável (não apenas o mundo humano, mas o universo - a física qüântica fala disto). Porém é cíclico (o "Eterno Retorno"), o que não nos permite preocupações maiores.
Faixa 14 - "Sambatron"
Pode ser que seja normal
Pode ser o início do fim
Se você disser que o samba é esse
Tomara que sim
Eu estava por aí
Meio assim paixão residual
Eu estava à espera do final
Do juízo sobre nós
Eu estava por aqui
Bem assim, depois do carnaval
Eu estava à espera do final
Do juízo sobre mim
Eu estava bem aqui
Nessa ilha artificial
Eu estava à espera do final
Do juízo sobre o mal
Para quem tem dois ouvidos
E não consegue entender
Para quem tem duas mãos
E não, não consegue doar
Para quem tem dois pulmões
E ainda assim falta ar
Para quem tem sexo
E sexo só não faz gozar
Laia badaia sabadana
Ave-maria
É pau é pedra
É toda alvenaria, eu sei
É pau é pó é pedra é o problema crônico
É o samba eletrônico, é o sério é o cômico
O mudo e o atônico, é o mundo atômico
É o saco sem fundo sem nexo do mundo, eu sei
.: O apocalipse. O caos. O juízo final.
O que a crítica disse: que parece Betles + Clube da Esquina (vários disseram isto - dá a impressão que ou é mesmo ou um falou e todos foram atrás). Também o britpop (para mim, mais novo, esta é notável). Que é um disco para violão. Alguém lembrou que a música "Supernova" tem um irmão de nome - "Champagne Supernova", do Oasis. Que o CD é uma guinada na carreira. Alguém disse que a banda arriscou - pelo contrário, é um CD muito fácil de ser ouvido por todos. Perderá alguns reaggeiros, porém isto já vinha acontecendo antes, coisa ínfima.
O que a banda disse: confirma as mudanças (atalho seguido desde "Resposta") e influências. No show começa peitando, com duas ainda desconhecidas do público. Depois uma série de sucessos. O jogo é ganho definitivamente nos acréscimos, tocando "Dois rios" só no bis.
Um crítico disse que as músicas mais agitadas do CD funcionam no conjunto. Discordo. Se eu fosse o produtor do disco tentaria alinhar as músicas de forma que de uma muito lenta não se passasse a uma agitada. Temos 4 opções de edição da ordem das músicas: 1) agitadas no princípio, decrecendo o rimo; 2) nofinal, em crescendo; 3) no meio, como uma montanha; 4) nas pontas, como uma vala. Qualquer opção seria melhor que a adotada, caótica - certo que o universo é "caótico", mas o CD não precisa adotar esta configuração. Mas se eu fosse gravar um CD para mim, coletando as músicas em mp3, por exemplo, deixaria as mais pesadas de fora.
Tentemos uma visão geral do CD - a temática principal é o amor, relacionamentos. Nãoli todas as críticas, mas das que li nenhum falou explicitamente da idéia geral do CD. O que notamos é um paralelo, entre o mundo humano, das paixões, e o mundo cósmico. Supernovas, sol que se põe e renasce, a instabilidade dos átomos. E os problemas do coração. O grande está no pequeno. As leis do Universo regem planetas e pessoas. Enfim, um CD coeso, cosmogônico, sim, e ótimo de escutar.
Escrito por Fernando César
27/09/2003
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LITERATURA
HISTÓRIA DA LITERATURA UNIVERSAL - PARTE 1
Do princípio: o nome "Universal" é pretensioso, pois reduz o Universo ao planeta Terra. Mas será aqui usado por questões de tradição.
Pretendemos traçar em alguns artigos um sumário resumo desta história, a da literatura.
Nas escolas brasileiras aprendemos apenas a história da litaratura brasileira, o que é altamnete mutilante na criação e no imaginário de qualquer pessoa. Os jovens são obrigados a ler muito do que melhor já se fez por aqui, mas sabemos que há muito do melhor, além. Um exemplo: a Folha de São Paulo escolheu, através de um júri de letrados, os melhores romances do século passado. O Brasil apareceu com livros na 5a. colocação e na 49a.. Só! Detalhe que o júri era de brasileiros, imagine se não. Daí a necessidade de um estudo bem mais amplo. O nosso não será excessivamente amplo, mas tentaremos pontuar as principais referências na evolução literária.
Antes de 600 a.C.
O que é literatura? Este conceito pode variar, e daí certas obras fundamentais podem entrar ou serem excluídas. De um modo geral inicia-se pelo óbvio: para ser literatura tem que ser legível, ou seja, estar escrito. Isto deixa de fora a mitologia de centenas de séculos atrás, que apesar de riquíssima, era transmitida via oral. Mas apesar de serem histórias não-escritas, creio que devam entrar na história da literatura porque foram a base temática de vários livros posteriores.
600 a.C. até início da era cristã
Uma questão mais difícil de unanimidade é se é literatura apenas o que é ficção. Ou seja, história real, escrita romanceada, é literatura? Apesar de tornar a história mais agradável de ser lida, julgo que não é literatura - pois não é ficção. este critério é arbitrário, sim, mas algum critério há que ser usado. Mas com certeza o fato de a história do real ser escrita, de forma floreada ou não, também passou a ser uma influência nos homens seguintes, por várias razões: o estímulo para o arquivo (os romances arquivam idéias originais ou realidades distorcidas); o impedimento à repetição pura etc.
1 d.C até Idade Média
A Bíblia Sagrada - o nome já se intitula "O livro". Na verdade, é uma biblioteca, ou seja, uma coleção, agrupada na temática religiosa, católica, de escritos de datas bem diversas. O fim não era literário, óbvio, mas a sua leitura disseminada influencia de forma sutil ou grosseira a escrita subseqüente - não apenas no como escrever, mas também sobre o quê escrever. Além disto, mesmo que o fim nõa seja ter feito literatura, muitos dos livros que a compõe podem ser lidos como livros que contam histórias, especialmente pelos que não têm fé na realidade dos fatos relatados.
(continua)
Escrito por Fernando César
22/09/2003
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MÚSICA
O MELHOR CD DO ANO
Não poderíamos começar esta coluna de melhor modo: escolhendo o melhor CD do ano. E qual é?
Antes da resposta, esclarecimentos necessários:
1) sei que estamos em setembro, logo, qualquer imprevisto alteraremos o resultado nas próximas edições (neste caso, um imprevisto seria ótimo!);
2) não escutei todos os CDs indicados como "bons" lançados no ano, logo é o melhor dentre os que ouvi.
3) o melhor CD nacional, ok? Dos internacionais falarei em outro artigo.
É difícil fazer artigos de música sem que o leitor já tenha ouvido os CDs ou possa ouví-los enquanto lê. Para o leitor conseguir captar algo, ter uma idéia do que está sendo dito, o resenhista geralmente tem que optar por comparações: o som novo do X lembra Y e Z. Mesmo com este impecilho, tentemos dizer algo.
Bem, até este mês o único CD que, ouvido do começo ao fim, apresentava unidade, novidade e qualidade superiores, para mim, era o Ventura, do Los Hermanos. Tento descrevê-lo: lírico, lento, surpreendente. Um pouco difícil à primeira audição? Sim. (Nossos ouvidos estão habituados à outras coisas.) Mas perfeito. Um pouco sobre a banda: eles não tocam "Anna Júlia" nos shows (ao menos no que eu fui...), e seu som hoje quase nada lembra este primeiro e maior sucesso. Usam sax, trompete, e no palco parecem garotos carentes. Fazem seus CDs como querem, e tem um grande público (fãs apaixonados) apesar do distanciamento da mídia. Triste que nem tudo que é feito com qualidade alcance tanto sucesso como o que é feito só para vender, mas cada povo tem os sucessos que merece...
O lançamento de Cosmotron, do Skank, inesperadamente criou uma disputa. Diferente dos outros CDs do grupo, há um grande distanciamento do "reggae". O disco é pop ao extremo, fácil de ouvir, e romântico. Junte-se a isto ser criativo, grandioso. Provável que venda muito. Um CD onde, tirando-se umas 3 músicas, que pouco encaixam-se às demais, sobram-se 11 jóias. Um CD de inéditas com 11 músicas boas é raridade.
A dúvida:
ou ?
Sem condições de desempatar. São diferentes um do outro e diferentes das coisas que tocam por aí. Os dois são o melhor CD brasileiro do ano. Dê um jeito de ouví-los com calma.
Escrito por Fernando César
19/09/2003
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POLÍTICA
NOBEL?
"A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE)
aprovou hoje um parecer do senador Eduardo Suplicy (PT-SP)
favorável a que o Senado proponha à ONU (Organização das
Nações Unidas) a indicação do nome do diplomata Sérgio Vieira de Mello como candidato ao Prêmio Nobel da Paz de 2003."
O senado pode até votar, até aprovar, até pleitear, mas sabe o dia que um brasileiro via ganhar um prêmio Nobel?....... (nós ganhamos o "Prêmio Montanha" - coisa que falaremos num próximo artigo -)
# # #
O Cimetiere des Rois:
O enterro de Vieira de Mello ocorreria inicialmente em Thonon-les-Bains, um cidade francesa perto de Genebra onde ele vivia. Mas autoridades de Genebra convidaram a família a sepultá-lo no Cimetiere des Rois, reservado a personalidades que marcaram a história internacional ou do país.
Apesar do nome, o cemitério não tem nada a ver com reis - a Suíça nunca teve uma monarquia. O nome do cemitério se deve ao fato de o local ter sediado competições de arco e flecha medieval, cujo ganhador é declarado "rei". O Cimetiere des Rois abriga os túmulos do religioso francês do século 16 João Calvino, do escritor argentino e ganhador do Prêmio Nobel Jorge Luis Borges (1899-1986) e de diversos políticos suíços. Vieira de Mello é a primeira alta autoridade da ONU a ser enterrada no local.
A Suíça, como já disse um grande ator de teatro brasileiro: não existe!
Escrito por Weder Wiliam
28/08/2003
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