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DIAS CONFUSOS
CARNE CRUA
--- "Editor":
Fernando César
Editorial
Toda informação é absorvida de forma particular, é recriada. Além do quê, muitas vezes deixa vácuos de dúvidas e lanças de idéias. Heresia é a soma destas recriações, dúvidas e idéias.
Por questões de tempo e de vontade, o tamanho de Heresia é flexível. Pode-se encontrar, em uma semana, um artigo curto, em outra um "grande tratado" sobre qualquer assunto.
Aqui falamos de política, personalidades, economia, cinema, sexo, história, literatura, psicologia etc.
E, sim, aceitamos colaborações (de idéias, mas se quiser dar sua parte em dinheiro...).
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LITERATURA
(idéias soltas sobre: Voragem, Junichiro Tanizaki)
Tenho o hábito não salutar de comprar mais livros que eu consigo ler, daí que é raro eu ler lançamentos, pois estes entram no fim da fila, a não ser que pareçam muito interessantes.
Leio agora Voragem, do japonês Junichiro Tanizaki (1886 - 1965). Atraído pelo título ("voragem" significa "aquilo que devora, subverte; abismo", lembra "voraz", lembra "coragem") e por ter lido que era "a história sensual de uma mulher casada que se apaixona em outra". Quando comprei, li a contra-capa: ela contva o final do livro (edição Planeta DeAgostini), como pode?!, e este foi também um dos motivos que eu deixasse o livro empoeirar, até que eu esquecesse o que tinha lido sobre o final.
Leio, então. O livro começa bem, em um ritmo ágil. O erotismo dá algumas amostras. Mas logo o trabalho perde o encanto. Vai ficando, aos poucos, horrível.
A contra-capa chama o de "uma das obras-primas" do autor - mas não podemos confiar na própria editora de um livro . Fui atrás de outras opiniões, na web, porque pareceu-me que já havia lido resenha positiva sobre ele.
Colho que este seria seu sétimo, entre 20 romances.
Tenho impressão que os resenhistas e eu não lemos o mesmo livro: todas as poucas críticas que achei são boas. Ou não lemos com o mesmo olhar, talvez eu seja mais crítico.
Se uma personagem é muito estranha, exagerada, até certo ponto não podemos culpar o autor por esta caracterização, porque se neste mundo há de tudo, porque não haveria alguém assim? Entretanto, as "forçadas" de enredo são mais difíceis de engolir. Concordo com o argumento de que um livro não conta as histórias banais. Devemos pensar que, se foi escrito, filmado, é justamente por ser uma história de exceção, mesmo que fictícia. Mas quando há um limite onde a trama deixa de ser verossímil, possivel, como é o caso deste livro, mudamos de categoria: do "realismo" (mesmo que inventado) para o "fantástico".
São tantas as reviravoltas que a história fica absurda. O modo como as personagens se sujeitam às situações é inacreditável. Por qualquer coisa todos falam em se matar. Toda hora choram, e não é pouco: "Naquela noite, nós dois choramos até amanhecer." Neuróticos, todos. Mas não parece ter sido a intenção de Junichiro fazer um "romance fantástico psicológico". Nem um romance psiquiátrico!
O livro poderia ser lido como um policial, pois boa parte do volume são investigações feitas pela narradora. Mas são investigações sobre o nada, rasas, dúvidas que surgem em sua cabeça, sem que algum crime tenha ocorrido. Um policial sem crime? Creio que também não foi a intenção.
Lendo-o, lembrei-me do autor do Blog do romance, site maravilhoso onde "destrói", (ou reconstrói?) todos os livros que lê, quando falava que na página 76 de Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva, teve vontade absoluta de parar de ler. Comigo isto aconteceu, em Voragem, na página 164. O livro ia até a 240. Continuei por estar 1) sem sono; e 2) seduzido não mais pelas virtudes do livro, mas mais interessado em como um livro conseguia se autodestruir.
Há contradições significativas em algumas caracterizações. Exemplo: na mesma página lemos que "(...) o próprio Watanuki não tinha nenhum interese em apressar o casamento(...)" e "(...)ele sonhava casar-se e viver com uma mulher(...)".
O livro é narrado pela protagonista a um sensei, o qual o leitor toma o lugar, pois este senhor nada diz e não interfere em nada. Então, por que existe?.
Não sei se o seguinte deslize foi da tradução, feita por uma sobrinha do autor, ou da edição: a história é contada pouco tempo depois dos fatos terem ocorrido, mas há um trecho que diz "era fato que, na época, os abortos eram severamente reprimidos".
A parte que poderia ser boa, só ameaça. É onde se diz que o amor de uma mulher por uma mulher é diferente do amor de uma mulher por um homem. Mas o argumento é apenas uma desculpa da personagem para seu marido, e não é desenvolvido.
O título promete e não cumpre: a história é voraz (ligeira, caótica), mas não encontramos um aprofundamento narrativo interessante. Mesmo considerando que o livro veio à tona originalmente em 1928, ele não fala mesmo de um beijo entre as duas mulheres - que tipo de homossexualismo é este? Apenas o do desejo? Mas nem mesmo este é desenvolvido.
E o final é contado bem antes. Não falo agora da contra-capa, mas dentro do próprio livro mesmo!
Esta obra, parece-se muito com aqueles livros ruins feitos em papel jornal com histórias, apesar de rocambolescas, sem conteúdo algum. Mas publicado como se fosse um bom livro. O que causa um certo desconforto. O produto trash tem seu valor dentro de sua categoria, mas o trash que se passa por bom nos engana. Talvez seja mais trash ainda...
Cartas à redação:
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LITERATURA
GUIAS DE LEITURA
(sobre: 100 autores que mudaram o mundo)
O título do livro, "100 autores que mudaram o mundo", exposto, me deixou em dúvidas: falaria de autores de literatura ou de autores de um modo geral? Porque entre autores que "mudaram o mundo" poderíamos incluir desde a Declaração dos Direitos do Homem até os escritos científicos de Einstein. Folheei. Era apenas sobre literatura, e como o tema me interessava, comprei. R$ 36,00, Prestígio Editorial, de Christine N. Perkins, 226 páginas.
Mas até que ponto a literatura pode mudar o mundo? Vá lá que alguns livros podem mudar um pouquinho mundo, mas o título é altamente pretensioso, perdoado apenas se considerarmos isto como um chamativo de marketing. Contudo, um mérito do título é não dizer que são os únicos que mudaram a história da literatura, nem que são os 100 mais importantes. São 100 entre os importantes, apenas. Isto já absolve a autora de críticas como a ausência de nomes renomados como Baudelaire, Flaubert, Balzac, Sade, Kafka. São nomes altamente reconhecidos entre nós, mesmo que nunca tenhamos lido nada deles, ao passo que para boa parte de nós são desconhecidos nomes como Alice Walker, Joyce Carol Oates e Louisa May Alcott. Se nos lembrarmos que a autora é americana, fica mais fácil compreender tais escolhas. Reflito: talvez uma das poucas vantagens de ser subdesenvolvido seja receber várias influências, de acordo com o poder de cada época: já fomos obrigados a lermos portugueses, europeus de um modo geral, e agora americanos - ao passo que as potências têm uma tendência ao hermetismo. Divagações... Aliás, no livro há muitos autores brasileiros: Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Drummond, Graciliano Ramos, Machado de Assis. estranho. Não que não sejam importantes, mas duvído que o original contivesse tantos, creio mais em uma adaptação feita à edição brasileira.
Enfim, o que é o livro? Foram escolhidos 100 autores, entre clássicos, outros nem tanto, e mesmo alguns best-sellers atuais (como Stephen King, Anne Rice e Michael Crichton) e, para cada autor deste, são dedicadas 2 páginas com um pequeno resumo biográfico e a importância de suas obras.
O fim do século avivou a mania das listas dos "melhores de todos os tempos". O filme "Alta Fidelidade" também ajudou, com a mania do protagonista de fazer, para tudo a lista dos "Top 5". O renomado crítico americano Harold Bloom lançou, há alguns anos, "O cânone ocidental", a sua lista com algumas dezenas de nomes fundamentais na literatura. A Folha de São Paulo fez algo mais democrático: solicitou a 10 pessoas (autores, críticos, etc.) que listassem os 10 romances mais importantes do século que acabou, e somou os votos, tendo produzido também seu ranking. Cada lista desta contém alguns nomes em comum mas muitos diferentes uma da outra.
Então, quais são os autores mais importantes do mundo, afinal? Depende da definição que adotarmos de "importância". Seriam os mais vendidos de todos os tempos? Poderia ser, mas feitas algumas ressalvas: 1) alguns autores só são descobertos após sua morte, ou seja, muitos que hoje não são importantes poderão ser, no futuro; 2) muitos livros são vendidos não porque os leitores querem comprar, mas porque são obrigados (quem de nós nunca teve que comprar um livro de Machado de Assis na escola?); 3) a população que pode comprar um livro hoje, teoricamente é bem maior que há algumas décadas, e esta "inflação demog'rafica do mercado" teria que ser levada em conta. De qualquer forma, se fossemos apenas por esta categoria Paulo Coelho é um autor muito mais importante que Carlos Drummond de Andrade, por exemplo.
Ou importante seria um escritor que influenciou vários outros, mesmo que seja pouco lido e conhecido? Por este critério, creio que os mais importantes talvez fossem os autores da Bíblia. Sem dúvida, no Ocidente qualquer um de nós já teve um contato, e geralmente precoce, com suas histórias e com seu jeito de contar estas histórias.
Ou importante são os inovadores? James Joyce escreveu um livro em que apenas uma palavra às vezes reunia dezenas de idiomas (Finnegans Wake, cuja versão brasileira "Finnicius Revem" acaba de ganhar o Prêmio Jabuti 2004 de melhor tradução - aliás, não folheei o livro, mas tenho cá comigo uma dúvida: se o livro foi escrito em várias línguas, é um procedimento honesto traduzí-lo?). Mas é um livro praticamente ilegível à mais de 99% da população mundial, que mal conhece o próprio idioma, quanto mais algumas dezenas. Alguns dizem que não se precisa entender o significado das palavras, mas apenas captar a musicalidade delas. OK, mas quem fez isto, na prática?
O verdadeiro cânone, então, a verdadeira compilação dos livros mais importantes da literatura desde os seus primórdios, pode ser realizada de duas maneiras distintas: a particular e a universal. Ou seja, há uma lista que cada um possui de seus livros preferidos, e uma lista que pode ser formada através do somatório das opiniões gerais. Grande é a chance de divergência entre estas duas. Como disse a ensaísta Leyla Perrone-Moisés sobre o livro de Harold Bloom: "O livro dele não tem o direito de ser chamado de "O Cânone Ocidental". Na verdade, é o cânone de Bloom.".
A quem interessa, então, um livro como este? A muitos de nós, a quem quer saber a opinião de alguém que possivelmente leu ou pesquisou mais que nós sobre quem seriam os autores mais significativos.
As biografias são curtas, e fala-se pouco das obras. Tanto os grandes nomes quanto os menos conhecidos têm o mesmo espaço, o que não faz como que o iniciante distingua uma coisa da outra. O ideal seria que houvesse um trecho curto de cada obra clássica. O livro cresceria, talvez sendo necessário reduzir o número de escritores citados para se manter o preço de capa.
É um guia de leitura, um bom guia, um início. Como é bom qualquer lista dos melhores feita por qualquer um que conheça um pouco mais, ou algo diferente, que nós.
Cartas à redação:
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